Histórias de Moradores de São Caetano

Esta página em parceria com o Museu da Pessoa é dedicada a compartilhar histórias e depoimentos dos Moradores da cidade.


História da Moradora: Rosa Maria Batista de Souza (Rosa Marya Colin)
Local: São Paulo
Data da publicação: 09/10/2012

Consciência negra


Sinopse:


Rosa Marya Colin fala das memórias da avó e de sua morte no dia da festa de São Pedro, sua ida para São Paulo com a família, o trabalho do pai como tintureiro e vida familiar em São Caetano. Rosa relembra a difícil com as madrastas, os primeiros contatos com a música na Rádio Nacional, a vinda para o Rio com a mãe, a vida na casa de cômodos na rua São Francisco Xavier Convites para participação nos programas de rádio na década de 1960 e relação com cantores famosos. Ela fala das lembranças do Beco das Garrafas, Wilson Simonal, Boscoli, sua experiência no teatro, a participação na montagem de Hair como uma das “Supremes”, suas vivências na TV Excelsior e Tupi, papel como Tia Anastácia no Sítio do Pica-Pau Amarelo. Em Suburbia, Rosa interpreta mãe Bia.

História

Eu me separei de meus pais aos quatro anos. Fiquei até os oito com a minha avó paterna. Eu sei que a mãe da minha mãe era caiapó, índia, caçada a laço pelo meu bisavô que era mascate e tinha origem árabe. Do meu pai não sei nada. Eu costumava brincar que eles eram pigmeus porque eram todos bem negrinhos, baixinhos. Meu pai era tintureiro. A minha avó... Eu me emociono, porque ela era tudo pra mim. Meu chão, meu céu, tudo! E aos oito anos ela faleceu. Foi uma tortura. Foi a maior tragédia da minha vida! Depois disso eu fiquei um tempo com a minha tia-madrinha, e fui morar com o meu pai, depois de muito minha tia implorar. Fui pra São Caetano do Sul. Fui morar na Estrada das Lágrimas, número 13. E lá foi outro tormento, porque eu tinha madrastas, que meu pai trocava de mulher toda hora. E meu pai era muito severo, batia muito. Um dia minha mãe apareceu atrás dos meninos e ficou um tempo. Meu pai mandou eu levar os meninos pra passear no parquinho. Quando nós voltamos, a mamãe tinha ido embora, de novo! Com 12 anos o Juizado de Menores foi me buscar.

Os primeiros dias que eu passei no Juizado foram num lugar terrível. Por causa de tudo, eu era muito interiorizada. Eu tinha medo das pessoas, do mundo. O lugar era na Rua Traipu, e lá as meninas eram as piores que tinham. Delinquentes. Eu não me misturava, então elas me espetavam com agulha, me queimavam com cigarro. Eles lá viram o meu sofrimento e perguntaram o quê que eu queria fazer: trabalhar ou continuar lá. Aí eu fui trabalhar numa casa, de babá. Fiquei um tempo. Um dia, a vigilante do Pensionato Maria Gertrudes, ligou, falou: “Rosa, você não quer vir pra cá?” Falei: “Eu quero”. E eu fui pro Pensionato e pra mim foi uma maravilha, a melhor fase da minha vida, porque lá eu estudei, fiz cursos de Cerâmica, Botânica, Culinária, Bordados. Era um lugar subsidiado pelos Diários Associados, TV Tupi e Radio Difusora.

No Natal os artistas iam lá. Na esquina tinha a casa da Wilma Bentivegna, e quando ela vinha chegando em casa, passando na rua, as meninas falavam: “A Wilma tá aí!” Eu subia correndo pro banheiro pra cantar, pra ver se ela me descobria. Mas a dona Maria José dizia que eu não podia ser cantora, que eu tinha que ser professora. Me botou pra fazer inglês. Dizia que cantora era vagabunda! Desde que eu fui pra São Paulo eu ouvia música. Meu pai ouvia música sertaneja. Naquela época, os negros e os brancos não se misturavam e o meu pai, onde negro não entrava, ele entrava. Com um sorriso, a simpatia e o violão. Ele tocava e cantava.

E minha mãe casou com o meu pai pra fugir do meu avô porque ela queria ser cantora. Eu já tenho isso no sangue! Aos três anos, quando a gente morava no Rio de Janeiro, a minha mãe me levou no Tabuleiro da Baiana, um programa que tinha um concurso de crianças. Ela me levou pra cantar e eu cantei Chiquita Bacana e ganhei o primeiro lugar. No Pensionato, os Diários Associados mandavam pra lá os discos que as rádios não queriam mais. E eu é que tomava conta porque eu era fissurada. Ali eu conheci e aprendi a gostar de música clássica, conheci o Jazz, Maurane, Bessie Smith, Billie Holiday. Eu cresci ouvindo Frank Sinatra. Eu ouvia a música e macaqueava o som, cantando.

Passou um tempo, a nossa Diretora disse: “Você vai completar 18 anos. O quê que você quer fazer da tua vida?”. Falei: “Eu quero ir embora com a minha mãe”. Eu tinha um imaginário de mãe padrão. Eu achava que a minha mãe era assim. Ela era uma pessoa muito esfuziante, gostava de gente, de unhas grandes, de se pintar, de Carnaval; eu era o oposto. Pra mim era uma tristeza ver a minha mãe tomando cerveja, indo no Carnaval. Eu odiava aquilo. Coitada! E até eu me harmonizar com ela levou um tempo. Cheguei no Rio em 1962 e a mamãe morava numa casa de cômodos. Foi a primeira bordoada porque, no pensionato, mesmo com o meu pai, a gente tinha uma casa boa. Quando eu cheguei aqui e vi uma casa de cômodos, marido brigando no quarto do lado com a mulher: “Meu Deus, eu tenho que sair daqui. O quê que eu vou fazer? Eu quero cantar”.

Peguei os livros que eu tinha, pedi um dinheiro pra minha mãe, comprei um dicionário da Barsa e espalhei na vizinhança que eu dava aula de Inglês. Eu montava aula de madrugada, e assim eu acabei aprendendo também. No final da temporada eu tava com oito alunos. Eu dava aula na parte da manhã e na parte da tarde eu ia procurar outro emprego. Eu trabalhava durante a semana e no final da semana eu ia cantar. A primeira vez eu fui na Rádio Mairinque Veiga, num programa chamado “Papel Carbono”. Me propus a imitar Angela Maria. Fui gongada mas não desisti. No Rossini Pinto, na Rádio Tupi, eu cantei uma música em inglês e outra em português. O cara gostou e eu fiquei fazendo o programa dele.

Quando acabou, ele me apresentou pro Jair de Taumaturgo, que era da Rádio Mairinque Veiga, e o Jair me levou pra Televisão. O Erlon Chaves, que tinha um programa chamado Embalo me chamou pra defender música americana. A TV Excelsior me chamou pra defender música americana. Em 67 fui contratada pela TV Record pra ir pra lá. Participei do Família Trapo, programa do Roberto, Elis, todos os programas. Onde eu fui popular foi no programa Essa Noite se Improvisa, do Blota Júnior. As pessoas me tratavam com muito carinho e muita atenção porque elas sabiam de onde eu tinha vindo. No meu primeiro show com o Wilson Simonal, ele tinha um cuidado comigo.

Arrumou pra mim dormir na casa de uma amiga dele porque não queria que eu saísse a noite sozinha. Muitas pessoas lindas apareceram na minha vida, que me acolheram, me deram abrigo, amor, carinho. Por isso que eu digo: o mundo foi e é a minha família. Com a Graça de Deus! Eu me considero uma flor nascida do lodo. Minha primeira experiência no Teatro foi em 68, no Hair. Nós fomos da primeira montagem. E foi muito importante porque botou a Rosa Marya pra fora! Foi uma peça revolucionária. As pessoas ficavam peladas. Eu não fiquei pelada porque eu já era cantora e não era bom pra minha imagem ficar pelada, mas vários atores ficaram. Foi uma experiência maravilhosa, me fez ficar mais esperta em relação ao mundo. Como atriz eu comecei fazendo televisão foi Escrava Anastácia,na TV Manchete. Eu era uma cozinheira na senzala. Depois eu fui fazer umaparticipação no Retrato de Mulher.

Comecei a fazer humor com o Chico Anysio. Fiz Hoje é Dia de Maria. Eu fazia Nossa Senhora e uma lavadeira. Eu fiz o Sítio. Agora no Suburbia, Mãe Bia. Uma mãezona com muito amor, coração aberto pra receber todos que viessem a sua casa, uma esposa dedicada. É ecumênica, igualzinho ao brasileiro. Vai na umbanda, reza o terço, tem uma Bíblia em casa, os santos de devoção, uma filha que é evangélica, um filho que não é de nada, que é ateu, que fala bobagens! E a casa dela é um esteio. E tem tudo a ver comigo.

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